Bem que o título poderia ser: VIZINHO MALA, mas vocês entenderão porque não é.
Vizinho mala todo mundo tem um, mente aquele que diz viver em paz com os vizinhos.
É só puxar pela memória:
Quem nunca teve como vizinho aquele velho chato que ameaçava furar a bola, só porque a gente jogava futebol, queimada, vôlei, basquete ou qualquer tipo de jogo que pudesse usar a bola, contra a porta de madeira da garagem dele ou mesmo porque a bola insistia em cair na varanda dele?
Quem nunca teve como vizinho aquele moleque babaca que vivia atormentando por causa das suas roupas, do seu jeito de ser, das suas músicas, das suas amigas?
Ou quem nunca teve como vizinho aquela menina metida que vivia fazendo cara feia por causa das suas roupas, do seu jeito de ser, das suas músicas, dos seus amigos?
E aquele vizinho que não sabe desligar o alarme do carro e toda vez que ele vai sair, de preferência domingo às seis horas da manhã, é uma sinfonia de sons estranhos que vão desde o relinchar delicado de um cavalo até aquela voz assustadora que grita que o veículo está sendo roubado?
Ou então aquela vizinha velha e fofoqueira que insiste em te recordar do quanto você envelheceu e engordou?
E aquela outra vizinha que passa o dia na rua, sem fazer mais nada da vida a não ser falar da vida alheia e que vive comentando sobre suas roupas, seu cabelo, o horário que você sai ou chega?
Tem também aquele outro, que por azar é seu vizinho de parede e que também é o síndico do prédio ou condomínio, e que vive interfonando, batendo na porta ou qualquer coisa do gênero sempre que nós e nossos amigos resolvemos falar, brincar, jogar ou qualquer coisa saudável até um pouquinho mais das 22:00 horas?
E aquele vizinho que adora parar o carrinho dele na porta da sua garagem e fingir todas as vezes que era rapidinho, ou que ele não imaginava que havia carros atrás daquele portão e daquela guia rebaixada?
Moro em uma pequena vila e tenho como prêmio vários tipos de vizinhos, mas o pior deles é o que mora na casa ao lado… Ao lado mesmo, parede com parede… porta com porta…
Aquele tipo filhinho de papai, que tem dinheiro saindo pelo ladrão e que não faz idéia do que seja levantar cedo de segunda a sexta para trabalhar e ganhar o salário no final do mês.
Aquele tipo que dorme tarde e acorda mais tarde ainda e que tem certeza que todas as pessoas do mundo, também, levam esta boa vida.
O querido vizinho, em pauta, é músico, toca em bares e restaurantes, toca violão e canta MPB… além de ser dono de um carro bem grande…
Mas acho que o mundo musical está um pouco difícil, porque o único lugar que eu o vejo, ou melhor o ouço, tocando e cantando é na casa dele. No quarto dele, parede com parede com o meu quarto.
E como ele toca!!! Geralmente das 14:00h até uma 5:00 ou 6:00 horas!
Primeiro são os exercícios de dedilhar as seis cordas de seu lindo violão elétrico… Se passam aí algumas boas horas de mi, si, sol, ré, lá mi… mi, si, sol, ré lá, mi… num interminável dedilhar que mais se parece com uma lavagem cerebral musical.
Depois passa para os ensaios das músicas, estas sim acompanhadas de sua voz, que no melhor estilo João Gilberto, desafinam os acordes arranhados em seu instumento de tortura, ou melhor musical.
Nesses ensaios, amplificados pelas paredes grudadas, temos vários acompanhamentos, desde o pandeiro, tamborim, zabumba, triângulo até os sons de um teclado de última geração que imita se bobear até arara azul e mico leão dourado…
E foi num desses deliciosos ensaios que comecei a devanear… Acho que eram quase quatro horas da manhã de uma terça-feira, quando comecei a ouvir sons estranhos.
Primeiro, achei que minha casa estava mal assombrada por alguma assombração que uivava… Ainda sonolenta, imaginei, então, que a assombração era cantora de ópera e estava na parte culminante da dor do amor… Cheguei a imaginar a alma penada subindo as escadas da minha casa e dirigindo-se lentamente e assustadoramente para o meu quarto…
Depois, coloquei minha cabeça no lugar, afinal, assombração não uiva, não canta e não sobe escada, geralmente elas se escondem dentro dos armários, nos espelhos ou embaixo das camas; e assim, por trabalhar com saúde mental, acreditei que estava perdendo a minha e estava alucinando… Pois tinha certeza que ouvia Carmina Burana com suaves arranjos de MPB…
Nessa hora, senti medo. Imaginei como seria ter que passar por psiquiatras e dizer que alucinava com sons de óperas no meio da madrugada, imaginei a quantidade de psicotrópicos que receberia para diminuir meus sintomas produtivos e porteriormente para diminuir minha impregnação e depois diminuir a agitação, ou seja, ingerir diarimente um pequena cota de 20 comprimidos coloridos…
Foi então, que um grande agudo da Maria Callas transviada em Cauby Peixoto me despertou para a mais cruel realidade, eram cinco horas da manhã da mesma terça-feira, não havia nenhuma assombração, nem alucinação, nem ópera, nem Carmina Burana, muito menos Callas ou Cauby, era apenas o vizinho… Aquele mala, com seu violão elétrico, sua voz rouca e pouco musical (para não dizer extremamente desafinada) e aquele teclado mágico, que naquele momento provavelmente reproduzia os sons de golfinhos e baleias em sexo selvagem, todos juntos em uma grande orgia.
Nessa hora, fiquei cega pela ira que se apossou do meu corpo e da minha mente embreagada pelo sono e pelo cansaço… E daí sim, alucinei… Nno melhor estilo de “Um Dia de Fúria” com um taco de beisibol quebrei os vidros do carro dele, depois arrombei a sua porta, mas não sem roer os fios do seu mensageiro do vento, e iniciei a destruição pelo lindo violão elétrico, quebrando com as unhas cada uma das seis cordas…
Perigosa e armada dirigi toda a minha atenção para o teclado que produzia aqueles sons e desferi uma tacada bem no meio, quebrando cada tecla até que não sobrasse preto no branco… E por fim, nesse alucinado rompante destilei as melhores palavras de ofensa musical ao querido vizinho…
Foi nessa hora, que outro som chamou minha atenção, era o despertador, gritando que já era hora de ir trabalhar, percebi que o rompante de raiva não passou de alucinação ou sonho, mas ainda pude ouvir o último acorde do violão que em seguida foi colocado de lado acompanhado por um longo e ruidoso bocejo e o som de um corpo se jogando e se ajeitando no colchão…
Levantei da cama e pensei: QUANTO SERÁ QUE CUSTA UM TACO DE BEISIBOL?